“Somos todos uma grande família” vs “Eu só trabalho aqui”

Os “Drops da EximiaCo” estão disponíveis em algumas das principais plataformas de podcast, incluindo iTunesSpotifyDeezer! Caso seu player não tenha suporte a nenhuma dessas plataformas, poderá usar nosso feed.


Grandes resultados demandam relações interpessoais saudáveis. Os economistas ensinam que há duas categorias distintas de relacionamento interpessoal envolvendo o trabalho: social e mercantil. Dentro e fora das organizações, boa parte dos desgastes nasce da falta de entendimento desse conceito.

O relacionamento mercantil é simples de entender. Nele, trocamos nossas competências, esforços e tempo por dinheiro e essa troca precisa ser justa! Um relacionamento social, por outro lado, não é baseado em dinheiro. Neles, fazemos coisas no intuito de reforçar a qualidade das relações.

Muitas vezes, sabemos intuitivamente qual categoria de relacionamento estamos mantendo e fica fácil agir de acordo. Outras vezes, temos entendimento equivocado incentivados por mensagens dúbias. Confusões quanto ao tipo de relacionamento podem gerar desgastes e prolemas, sobretudo, quando as partes envolvidas não percebem a relação da mesma forma.

Não “pagamos” por um jantar na casa de um amigo, mas levamos vinhos ou outros agrados que talvez custem até mais caro que um bom jantar em um bom restaurante. Também não damos dinheiro aos nossos familiares para que estes cuidem de nossas crianças em uma eventualidade, mas pagaríamos para uma baba.

Nas organizações, as pessoas trabalham e contam com uma remuneração justa (relação de mercado). Mas também é comum que essas mesmas pessoas se predisponham a fazer “algo a mais” pela relação social com o time ou com o líder. O problema é quando as empresas passam a usar e abusar a boa relação social como argumento de sustentação da relação de mercado.

Imagine que você é convidado a compartilhar suas opiniões sobre um determinado tema de especialidade em uma palestra. Consideremos três cenários: 1) ao final da palestra você recebe um presente – uma garrafa de vinho; 2) ao final da palestra você recebe um envelope indicando que uma doação, simbólica, foi feita, em seu nome, para uma instituição de caridade; 3) ao final da palestra você recebe um envelope com uma nota de cinquenta reais. É provável que todas as três iniciativas tenham o mesmo custo financeiro para a organização do evento. Entretanto, as duas primeiras reforçam a ideia de um relacionamento social e a última é uma afirmação de um relacionamento de mercado. Quando há trabalho envolvido, presentes são agradecimentos, dinheiro é pagamento!

Se, no exemplo do parágrafo anterior, a palestra fosse organizada por um grupo social (comunidade), há boas chances de que você, o palestrante, percebesse sua participação como uma oportunidade para melhorar seu relacionamento social. Por outro lado, se ocorresse em uma empresa, você provavelmente entenderia as coisas de outra forma.

Quando assistimos a uma “aula” no YouTube, sem custos nem objetivos comerciais explícitos, estamos frente a um cenário onde o produtor do conteúdo está, provavelmente, buscando fomentar relações sociais. Em casos como esse ou similares, devemos exercitar a flexibilidade e não é coerente cobrar “profissionalismo”. Por outro lado, quando pagamos para participar de um evento ou para frequentar um curso, é correto esperar pelo atendimento de determinados níveis de qualidade. Afinal, se há lucro ou evidente compensação financeira, trata-se de uma relação mercantil.

Costuma ser um grande erro tratar relacionamentos sociais com expressões de mercado. Aliás, pode soar extremamente ofensivo. Ninguém em sã consciência ofereceria dinheiro a um “first date“, por exemplo. Por outro lado, quando há uma relação de mercado, é cruel tentar criar “ganchos” para fazer parecer que estamos em uma relação social.

É comum vermos empresas usando expressões como “família” para designar as relações com seus empregados. Entretanto, se esse fosse o caso, a remuneração não poderia ser o mais importante e, até mesmo, poderia ser dispensável. Não sendo esse o caso, há grandes chances de que a comunicação esteja sendo prejudicada com ruídos.

Quando uma das partes percebe uma relação como sendo de mercado e a outra como sendo social, há uma crise de reciprocidade. No embate entre o mercado e o social, o primeiro costuma prevalecer. Basta um breve descuido para que uma relação social construída ao longo de anos seja transformada em relação mercantil e, geralmente, o caminho inverso costuma ser difícil ou até mesmo impossível.

Boa comunicação acontece quando deliberadamente diminuímos ruídos e amplificamos o sinal. Dentro e fora das organizações, estaremos reduzindo significativamente as chances de desgastes e descontentamentos se formos explícitos quanto a natureza dos relacionamentos. Não devemos usar expressões como “família” em uma relação mercantilista. Tampouco, devemos recorrer a mercantilismos em relações sociais.

Em Resumo
  • O fato

    Os economistas ensinam que há duas categorias distintas de relacionamento interpessoal envolvendo o trabalho: social e mercantil. Quando uma das partes percebe uma relação como sendo de mercado e a outra como sendo social, há uma crise de reciprocidade. Dentro e fora das organizações, boa parte dos desgastes nasce da falta de entendimento desse conceito.
  • O problema

    Nas organizações, as pessoas trabalham e contam com uma remuneração justa (relação de mercado). Mas também é comum que essas mesmas pessoas se predisponham a fazer "algo a mais" pela relação social com o time ou com o líder. O problema é quando as empresas passam a usar e abusar a boa relação social como argumento de sustentação da relação de mercado. É comum vermos empresas usando expressões como "família" para designar as relações com seus empregados. Entretanto, se esse fosse o caso, a remuneração não poderia ser o mais importante e, até mesmo, poderia ser dispensável.
  • A recomendação

    Dentro e fora das organizações, estaremos reduzindo significativamente as chances de desgastes e descontentamentos se formos explícitos quanto a natureza dos relacionamentos. Não devemos usar expressões como "família" em uma relação mercantilista. Tampouco, devemos recorrer a mercantilismos em relações sociais.

Elemar Júnior

Microsoft Regional Director e Microsoft MVP. Atua, há mais de duas décadas, desenvolvendo software e negócios digitais de classe mundial. Teve o privilégio de ajudar a mudar a forma como o Brasil vende, projeta e produz móveis através de software. Hoje, seus interesses técnicos são arquiteturas escaláveis. bancos de dados e ferramentas de integração. Além disso, é fascinado por estratégia e organizações exponenciais.

Essa publicação foi destaque em

Talvez você goste também

Carregando posts…
1 comentário
  1. Maicon Wissmann

    Muito bom o artigo e bem relevante nos dias de hoje, consegui identificar varias situações em que vivi no mercado de trabalho que se encaixam muito bem nos conceitos de relação social e de mercado, e é complicado quando uma das partes força algo..

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *