Em tempos difíceis, é inspirador aprender com Peter Drucker e Carlo Cipolla

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As “provocações” desse texto até poderiam ter motivação política. Mas, não tem. No lugar de falar sobre os governos, que influenciamos menos, gostaríamos de manter o foco nas empresas, onde todos nós exercemos alguma influência.

Peter Drucker dizia que o lucro é o reconhecimento da sociedade à capacidade de uma empresa de fazer algo bom. Por outro lado, o prejuízo seria a penalização pela incompetência. Poucas vezes essa ideia foi tão relevante quanto nos tempos atuais.

Momentos de crise, como o que estamos vivendo em função da pandemia de COVID-19, combinados com a obviedade de que não temos controle, tampouco previsibilidade sobre o que está por vir, têm colocado à prova as capacidades das empresas de “fazer algo bom”. Jogando by the book, muitas empresas, com fôlego, estão, por exemplo, antecipando demissões. O argumento é prolongar traços de saúde financeira e potencializar a competitividade quando alguma estabilidade for restaurada. Entretanto, no nosso entendimento, estão ignorando o fato de que estamos em um período de exceções e, portanto, não há livro de regras confiável. Assim, embora o by the book recomende austeridade, é provável que esta acabe resultando em danos persistentes às marcas ou, no mínimo, exigindo tanto esforço de gestão de mídia, o que desvia o foco das ações que seriam mais relevantes. A propósito, a recomendação de George Bradt, faz todo sentido: deveríamos priorizar segurança física, reputação e finanças, nessa ordem. É claro e evidente que só faz sentido ter um “bom nome” quando ainda há um negócio para este referenciar, mas, seguramente, os nossos tempos pedem que posterguemos iniciativas amargas para o último momento responsável. Não é fácil, mas a boa gestão consegue reconhecer esse momento.

As observações de Carlo Cipolla, economista e historiador italiano, sobre a conduta das pessoas e o impacto nas sociedades, sobretudo nas empresas e governos, parecem mais relevantes do que nunca. Ele defendia que fôssemos classificados de acordo com nossa disposição de gerar o bem para nós mesmos e para os outros.

Segundo Cipolla, as pessoas podem ser classificadas como vítimas, aproveitadoras (bandits no original), inteligentes ou estúpidas. São vítimas as pessoas que, de maneira deliberada ou não, são incapazes de agir em benefício próprio e que, com frequência, são prejudicadas em benefício dos outros. Os aproveitadores, por outro lado, são aqueles que agem exclusivamente conforme seus interesses. Enquanto isso, os inteligentes são os que conseguem agir de forma favorável para todos e, finalmente, são “estúpidos”, os incapazes de gerar qualquer benefício a partir de seus atos.

Dentre os aproveitadores que sistematicamente exploram as vítimas, há aqueles que subvertem o sistema atacando os inteligentes. Também há vítimas que, além de não agirem em causa própria, facilitam sua própria desgraça.

Momentos de crise exigem lideranças inteligentes. Ou seja, comprometidas profundamente em gerar o bem para elas e para os outros. O impacto de lideranças aproveitadoras pode ser devastador e o das estúpidas seguramente o é. Além disso, os tempos são extremamente hostis para as vítimas – que precisam ser protegidas.

Nesse contexto, é profundamente revelador o entendimento de Cipolla, de que as pessoas geralmente não agem de maneira consistente e, com frequência, transitam de uma classificação para outra. A única exceção importante à regra é representada pelas pessoas estúpidas que normalmente mostram uma forte tendência à perfeita consistência em tudo que fazem.

Partindo de suas observações, Cipolla prescreve um conjunto interessante de “leis”:

  1. Sempre e inevitavelmente todos subestimam o número de pessoas estúpidas em circulação;
  2. A probabilidade de uma determinada pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa pessoa;
  3. Uma pessoa estúpida é aquela que causa prejuízos a outra ou a um grupo, enquanto ela mesma não obtém ganho e, possivelmente, incorre em perdas;
  4. Os não estúpidos sempre subestimam o poder prejudicial de indivíduos estúpidos. Em particular, esquecem constantemente que, em todos os momentos e lugares e sob quaisquer circunstâncias, lidar e/ou associar-se a pessoas estúpidas sempre acaba sendo um erro caro;
  5. Uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso de pessoa; ou uma pessoa estúpida é mais perigosa que uma “aproveitadora”.

Ainda segundo Cipolla:

Tudo isso sugere alguma reflexão sobre o desempenho das sociedades. De acordo com a Segunda Lei Básica, a fração de pessoas estúpidas é uma constante que não é afetada pelo tempo, espaço, raça, classe ou qualquer outra variável sociocultural ou histórica. Seria um erro profundo acreditar que o número de pessoas estúpidas em uma sociedade em declínio é maior do que em uma sociedade em desenvolvimento. Ambas as sociedades são atormentadas pela mesma porcentagem de pessoas estúpidas. Entretanto, em uma sociedade com desempenho ruim:

  1. os membros estúpidos são autorizados pelos outros a se tornarem mais ativos e a realizarem mais ações;
  2. há uma mudança na composição da seção não estúpida, com um declínio relativo das populações de inteligentes, ingênuos – apenas incapazes de agir em benefício próprio – e de aproveitadores que exploram o sistema; e há um aumento proporcional das populações de ingênuos que se colocam deliberadamente em condição de desvantagem e dos aproveitadores que exploram as vítimas e não ao sistema.

Das observações de Cipolla, é razoável concluir que é inútil tentar combater a estupidez. Entretanto, é recomendável não potencializar a capacidade dos estúpidos de causar danos. Além disso, é fundamental que se trabalhe de maneira ativa para promover o comportamento inteligente, tentar identificar quem são as vítimas mais afetadas e desestimular os aproveitadores.

Como Peter Drucker dizia, o lucro é o reconhecimento da sociedade à capacidade de uma empresa de fazer algo bom. Por outro lado, o prejuízo seria a penalização pela incompetência. Será evidência de competência, nesses tempos difíceis, o posicionamento inteligente das lideranças e dos liderados. Não é tempo para estúpidos tampouco para aproveitadores.

Em Resumo
  • O fato

    Peter Drucker dizia que o lucro é o reconhecimento da sociedade à capacidade de uma empresa de fazer algo bom. Por outro lado, o prejuízo seria a penalização pela incompetência. Momentos de crise, como o que estamos vivendo em função da pandemia de COVID-19, combinados com a obviedade de que não temos controle, tampouco previsibilidade sobre o que está por vir, têm colocado à prova as capacidades das empresas de "fazer algo bom"
  • O insight

    A recomendação de George Bradt, faz todo sentido: deveríamos priorizar segurança física, reputação e finanças, nessa ordem. Momentos de crise exigem lideranças inteligentes. Ou seja, comprometidas profundamente em gerar o bem para elas e para os outros. O impacto de lideranças aproveitadoras pode ser devastador e o das estúpidas seguramente o é. Além disso, os tempos são extremamente hostis para as vítimas - que precisam ser protegidas.

Elemar Júnior

Microsoft Regional Director e Microsoft MVP. Atua, há mais de duas décadas, desenvolvendo software e negócios digitais de classe mundial. Teve o privilégio de ajudar a mudar a forma como o Brasil vende, projeta e produz móveis através de software. Hoje, seus interesses técnicos são arquiteturas escaláveis. bancos de dados e ferramentas de integração. Além disso, é fascinado por estratégia e organizações exponenciais.

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